A ALCA não se negoceia,<br> rejeita-se
O V Encontro Internacional de Economistas sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento, realizado em Havana de 10 a 14 do corrente, transcorreu numa atmosfera de vésperas de guerra.
A convicção de que a evolução da humanidade naqueles dias seria decisivamente influenciada por decisões e acontecimentos inseparáveis do projecto norte-americano de agressão ao Iraque marcou as conferências e debates do início ao fecho do Encontro. Essa certeza reforçou nos participantes a consciência de que existe uma complementaridade entre a estratégia imperial de dominação planetária do sistema de poder dos EUA e a globalização neoliberal cujos efeitos motivavam a presença na capital cubana de economistas e cientistas sociais vindos de quatro dezenas de países.
Roberto Verrier, o presidente da Associação dos Economistas de Cuba (e da América Latina) deixou transparente na abertura dos trabalhos que a complexidade da crise que a humanidade atravessa conferia à Conferência um significado que transcendia o simples intercâmbio de opiniões sobre políticas económicas e problemas do desenvolvimento.
Presença do FMI
e do Banco Mundial
Cuba não teme o discurso dos epígonos do capitalismo porque acredita na superioridade do socialismo. No âmbito da batalha de ideias promove o diálogo entre ideologias e correntes de pensamento antagónicas. No V Encontro defensores da globalização capitalista tiveram assim a oportunidade de expor e defender ideias sustentadas pelas diferentes escolas neoliberais.
Dirigentes e altos funcionários do FMI, do Banco Mundial e do BIRD, com discursos e estilos diferentes, partindo dos relatórios das respectivas organizações, apresentaram, a sua visão dos supostos benefícios resultantes da aplicação das políticas de ajuste de figurino neoliberal.
Foram todos ouvidos com respeito, como sublinhou Fidel. Mas não podiam impressionar um plenário onde predominavam economistas com um nível de consciência social e política muito elevado.
O mais sobranceiro dos porta-vozes do mundo do capital terá sido Eliot Kalter, director do FMI para o Hemisfério Ocidental. Falou como se o malogro das políticas neoliberais fosse da responsabilidade das instituições e povos da América Latina por elas arruinados. As excepções seriam o Chile e o México, países merecedores de nota positiva, com governantes dotados de uma visão ampla da história, tal como os asiáticos.
Luís Guash, do Banco Mundial, foi mais melífluo. Dissertando com suavidade sobre tecnologia e educação na América Latina apresentou um quadro da realidade semeado de armadilhas e inverdades, para concluir que o fosso entre o Norte e o Sul diminuirá se a integração entre a empresa e a universidade for aprofundada na América Latina. Por outras palavras, a educação deve ser colocada mais directamente ao serviço do capital.
Nas conferências dos funcionários do FMI, do Banco Mundial e do BIRD
ficou implícito que a ALCA poderia, na perspectiva dessas instituições, ser uma solução salvadora para a América Latina, como factor de uma integração harmoniosa geradora de bem estar e desenvolvimento.
A resposta, vinda de académicos cubanos e de diferentes países do Hemisfério, foi demolidora.
O prof. Arturo Huerta, da Universidade Autónoma do México, esboçou o retrato do México recolonizado pelo Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN): uma agricultura destruída, uma indústria dominada por empresas transnacionais, uma banca quase totalmente nas mãos de gigantes estrangeiros, um astronómico déficit comercial e de conta corrente, uma dívida externa que não pára de crescer.
O prof. Julio Gambina, da Universidade de Rosário, comentando o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, apresentado por duas funcionárias da instituição, iluminou o quadro patético do seu país, a Argentina. Foi o mais disciplinado dos Estados latino-americanos que aplicaram com rigor as receitas do Consenso de Washington. Tão dócil que renunciou à própria moeda para adoptar o dólar. Qual o resultado? Foi à falência e hoje mais de metade da população sobrevive ali em condições sub-humanas. As empresas públicas foram privatizadas e agora não há mais nada para vender.
Que faz o governo? Estende a mão ao FMI e ao Banco Mundial que propõem as mesmas receitas que transformaram em pedinte um dos países mais ricos do Continente.
Cito dois exemplos entre muitos. A ALCA foi condenada por todos os economistas latino-americanos que em Havana intervieram sobre o tema.
No encerramento, Fidel sintetizou o pensamento consensual ao reafirmar que a ALCA não se negoceia, rejeita-se porque a sua implantação significaria a anexação da América Latina pelos EUA.
O debate nas comissões
Nas sessões plenárias e em cinco comissões, com rigor cientifico, imaginação, e numa atmosfera de intensa participação, o melhor do pensamento criador da América Latina aprofundou a reflexão sobre a problemática da Globalização neoliberal e a busca de alternativas a um sistema rejeitado pelos povos do Hemisfério a Sul do Rio Bravo.
A pluralidade do Encontro permitiu debates fascinantes com funcionários da engrenagem trituradora ligados à elaboração e à execução das políticas que Washington impõe no contexto do seu projecto de ordem planetária imperial.
Mas o Encontro não se limitou a essa confrontação.
O programa reflectiu a complexidade e a dramaticidade da crise global da humanidade e de tensões regionais que nela se inserem. Não faltaram por isso mesmo os temas ideológicos em torno da eterna questão do poder e daquilo a que o argentino Atilio Borón definiu como «o extravio teórico e político no pensamento crítico contemporâneo».
Nas Comissões, trabalhos cujos temas envolviam o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, a Rússia, a Turquia, a Ásia Oriental suscitaram intervenções polémicas. É natural. Naqueles dias, a revolta popular explodia nas ruas de La Paz, na Bolívia, e os participantes - mais de um milhar - acompanhavam com emoção o crescer da grande maré mundial em defesa da paz e contra a guerra planeada e desejada pelo sistema imperial norte-americano, e aplaudiam a firmeza dos povos francês e alemão na recusa da barbárie.
Sentimentos de esperança, incerteza, medo e confiança afloravam, cruzando-se, em diálogos que expressavam, naturalmente, olhares nem sempre coincidentes sobre o futuro imediato. Houve intervenções tecnocráticas, em que a estrutura académica ocultava mal por vezes a convicção de que o capitalismo pode ser recuperado e reestruturado através de lentas reformas graduais. Mas essas posições foram minoritárias, diluindo-se na grande vaga da contestação frontal ao neoliberalismo globalizado.
Mais de uma vez, foi recordado o brado de Rosa Luxemburgo, reactualizado pela escalada do terrorismo de Estado promovida pelos senhores do Novo Imperialismo norte-americano: «Socialismo ou barbárie».
A declaração pela paz
Não obstante ser tecnicamente plural, o V Encontro de Havana foi - como sublinhou Esther Aguilera, vice presidente da Associação dos Economistas de Cuba - politicamente comprometido e humanamente solidário.
Esse espírito teria de vir à tona, torrencialmente, na sessão de encerramento. Os documentos submetidos ao plenário foram já lidos na atmosfera de confraternização fraterna de gente que acredita que «outro mundo é possível», o lema do Fórum Social Mundial. Isso aconteceu com a vibrante e combativa Declaração dos Jovens reunidos naquele mesmo Palácio das Convenções num Encontro simultâneo, e também com a Declaração Final do V Encontro, intitulada «Declaração pela Paz na véspera de uma guerra anunciada».
«A humanidade deve levantar-se contra esta guerra imoral e irracional - assim termina o documento apelo. O homem e a mulher do século XX têm o direito a uma coexistência pacífica sem serem obrigados a pagar o preço da própria vida ou a comprometerem inexoravelmente o seu futuro».
Fidel Castro - que esteve presente nos cinco dias da mais importante reunião anual de economistas de todo o mundo - encerrou o acontecimento com um discurso que durou uma hora e vinte minutos.
Foi uma peça oratória simultaneamente política e humanista. Nela definiu a globalização neoliberal como «a mais desavergonhada recolonização do Terceiro Mundo», conclamando os povos da América Latina a oporem-se à ALCA.
Condenando a anunciada guerra contra o Iraque como uma monstruosidade, alertou para uma contradição complexa: a enormidade dos desafios que ameaçam a civilização e a continuidade da vida forçam também o homem a viver na mais extraordinária época da história.
Mergulhada nessa tempestade, Cuba - assim o afirmou - é e permanecerá socialista.